As canetas emagrecedoras — os análogos de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida — viraram um dos assuntos mais comentados em saúde nos últimos anos. E é verdade: elas são ferramentas poderosas. Mas uma pergunta que eu recebo o tempo todo é: "dá pra usar sem acompanhamento de nutricionista?" A resposta curta é não, com segurança não dá. Deixa eu explicar por quê.

Como essas medicações funcionam

Os análogos de GLP-1 imitam um hormônio que o próprio intestino produz naturalmente. Eles retardam o esvaziamento do estômago, aumentam a sensação de saciedade e, no caso de medicações como a tirzepatida (Mounjaro), também atuam sobre outro hormônio, o GIP, potencializando ainda mais a redução do apetite. O resultado é uma perda de peso significativa — estudos mostram médias entre 10% e 20% do peso corporal, podendo chegar a mais em alguns casos.

O apetite reduzido é uma faca de dois gumes

Aqui mora o primeiro risco real: quando o apetite despenca, é fácil comer de menos — não só em calorias, mas em nutrientes essenciais. Sem uma orientação nutricional acompanhando esse processo, é comum que a pessoa acabe ingerindo proteína insuficiente (o que acelera a perda de massa muscular, não só de gordura), além de vitaminas e minerais abaixo do necessário. Fadiga, tontura e fraqueza, mencionados com frequência por quem usa essas medicações, muitas vezes têm relação direta com essa ingestão inadequada — não só com o efeito farmacológico em si.

Efeitos colaterais que pedem ajuste de conduta alimentar

Náusea, refluxo, diarreia e constipação estão entre os efeitos mais relatados — e a forma como você organiza suas refeições influencia diretamente a intensidade desses sintomas. Refeições muito volumosas ou muito gordurosas tendem a piorar o desconforto digestivo; a distribuição de fibras, líquidos e o fracionamento das refeições ao longo do dia fazem diferença real no conforto do dia a dia. Isso não é acaso — é ajuste técnico, que um profissional orienta com base na sua resposta individual à medicação.

Hidratação: um ponto frequentemente esquecido

Os receptores de GLP-1 também influenciam o controle da sede, o que pode gerar uma redução natural na ingestão de líquidos. Somado aos efeitos colaterais gastrointestinais (que já favorecem perda de líquidos e eletrólitos), isso cria um risco real de desidratação que passa despercebido se ninguém estiver de olho nesse detalhe.

O risco em quem já tem outras condições de saúde

Para pessoas com diabetes em uso de outros medicamentos, por exemplo, o ajuste incorreto da alimentação junto com a caneta pode gerar episódios de hipoglicemia. Sem uma avaliação clínica que considere o quadro de saúde completo — não só o objetivo estético do emagrecimento — a medicação pode até funcionar "bem demais" a ponto de gerar complicações.

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O que a medicação não resolve sozinha

Existe uma frase que resume bem o que penso sobre isso: o medicamento tira a fome, mas não ensina a comer. Se o uso da caneta não vier acompanhado de um trabalho real sobre qualidade nutricional e comportamento alimentar, a pessoa corre o risco de ficar flácida, mal nutrida, e — o que é mais frustrante — de recuperar o peso perdido assim que o tratamento for reduzido ou interrompido, porque o trabalho de reconstrução de hábitos simplesmente não foi feito.

Como deveria ser, então

O uso dessas medicações, quando indicado clinicamente, funciona melhor como parte de um processo mais amplo — não como solução isolada. Isso envolve prescrição e acompanhamento médico responsável, ajuste nutricional que preserve massa muscular e ofereça os nutrientes que o apetite reduzido deixaria de buscar sozinho, e trabalho comportamental para que os hábitos construídos durante o tratamento se sustentem depois dele. É essa combinação — não a caneta isolada — que realmente protege o resultado a longo prazo.

Ana Lobo Nutricionista
Ana Lobo Nutricionista CRN-3 69370 · Nutrição Esportiva e Comportamental — USP